Qual futuro é mais provável: um positivo ou um negativo?
Por Albert HolzhackerQual futuro é mais provável: um positivo ou um negativo?
Se você enxerga a vida como uma fotografia, provavelmente tenderá para o negativo. A tendência é projetar a imagem atual para o futuro: criminalidade, guerras, desigualdades, incertezas, transtornos mentais.
Mas, se você vê a vida como um filme, percebe que esses desafios já aconteceram antes e, mesmo assim, seguimos avançando. Hoje, muitas pessoas vivem muito melhor do que no passado — embora ainda não tenhamos uma fada mágica com uma varinha de condão para resolver tudo de uma só vez (mesmo que alguns políticos se apresentem como tal - antes das eleições).
Uma tendência histórica ao progresso
Estudiosos e pensadores, tanto do Ocidente quanto do Oriente, preferem ver a vida como um filme. Essa visão é empoderadora e tem respaldo científico. Há indícios de que existe um “padrão maior”: uma espécie de tendência ao positivo e a níveis mais elevados de complexidade — ainda que esse progresso não seja sempre contínuo, linear ou garantido. O historiador David Christian ilustra isso em sua palestra Big History no TED (ou, em português História do Universo Dublado no YouTube).
“A propensão das coisas”, título do livro do sinólogo francês François Jullien (2015), é fundamental no pensamento estratégico chinês, que busca eficácia e bons resultados com o mínimo de heroísmo e esforço. E, “a propensão das coisas” no mundo VICA Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo atual, é positiva – ainda que um pouco assustadora.
Já Thomas Malone, diretor do MIT Center for Collective Intelligence, no livro Superminds (2018), apresenta argumentos, dele e de outros estudiosos, de que a tendência natural é caminharmos para um futuro que gere o maior bem para o maior número de pessoas — ainda que eventos inesperados possam alterar o percurso.
Uma Supermente Global
Pessoalmente, acredito que, entre os diferentes futuros possíveis, o mais provável é positivo — e que você e eu temos a opção de trabalhar para que ele aconteça mais rápido. Como? Juntando-nos aos que propõem, ainda que com palavras diferentes, fortalecer uma “Supermente Global”: uma “inteligência planetária coletiva” que funcione de forma genial, sábia e integrada, talvez até consciente. Nesse contexto, o termo “supermente” se apropria do conceito de “superorganismo”, usado em biologia para descrever um conjunto de organismos individuais que funcionam de forma tão integrada e coordenada que se comportam como se fossem um único organismo.
A história das conexões humanas
A supermente Homo Sapiens existe faz uns 200.000 anos, ainda que de forma tênue e dispersa, pois até a revolução agrícola vivíamos em pequenos bandos de até 50 pessoas que só ocasionalmente interagiam uns com os outros. Isto mudou. Nos últimos 12.000 anos, desde o início da revolução agrícola, a busca por maior interconexão fez com que utilizássemos cavalos, roda, barcos, telégrafo, trens, automóveis, radiocomunicações, aviões e fibras óticas para nos comunicar e integrar mais. Hoje, através da internet, a grande maioria das pessoas consegue se conectar instantaneamente com qualquer outra pessoa que esteja em um país democrático por áudio e vídeo, mesmo que esteja do outro lado do mundo. Essa rede crescente de conexões não apenas aproximou povos e culturas, como também despertou em nós o desejo coletivo de ir além do conhecido.
Podemos nos imaginar como neurônios de um imenso cérebro global. E, assim como um único neurônio não compreende toda a complexidade do cérebro ao qual pertence, nós também só alcançamos uma visão parcial de toda a capacidade e dos desejos dessa grande mente coletiva.
Da Terra ao infinito: o impulso por novos horizontes
Esse movimento histórico de integração crescente nos revela algo sobre a própria natureza dessa Supermente Global: ela não se contenta em permanecer limitada, mas impulsiona a humanidade a buscar novos horizontes. Para entendê-la melhor, podemos recorrer à história. Um dos anseios dessa Supermente Global parece ser, à semelhança de nossos antepassados que, com coragem, atravessaram mares e oceanos em jangadas e embarcações rudimentares para explorar novas terras, que façamos o mesmo rumo ao infinito, desbravando planetas e – quem sabe – até outras estrelas.
Abundância: um próximo passo da evolução
Mas, antes disso, precisamos enfrentar e resolver alguns “probleminhas” que ainda travam a nossa evolução aqui na Terra. Um deles, invisível para a maioria, é o medo da escassez, que se instalou no início da revolução agrícola e que hoje impede nosso avanço rumo a um futuro mais positivo. Esse medo precisa ser, gradualmente, transformado em confiança na abundância exponencial — algo já possível graças aos avanços científicos e tecnológicos, especialmente em robótica e automação. Podemos imaginar fábricas de robôs produzindo outros robôs capazes de plantar, colher e fabricar tudo o que for necessário. A tecnologia para isso já existe.
O que ainda falta é garantir energia limpa, abundante e barata para alimentar essas fábricas e serviços robotizados. Uma alternativa são grandes ‘fazendas’ de painéis solares. Outra são usinas de fusão nuclear, que funcionam como o Sol: de forma limpa, segura e sem resíduos. A previsão é que essas usinas estejam operando em larga escala e comercialmente a partir da década de 2040.
Abundância exponencial: uma visão embasada no presente
Para quem deseja se aprofundar na ideia de Abundância Exponencial, recomendo o livro Abundância: o futuro é melhor do que você espera (Diamandis & Kotler, 2012). Nele, os autores defendem que, apesar das crises e das notícias negativas, a humanidade vive hoje o momento de maior potencial de desenvolvimento da história. Graças ao avanço exponencial da tecnologia e ao poder do pensamento colaborativo, estamos caminhando para um futuro de abundância, no qual será possível suprir as necessidades básicas de toda a população mundial e melhorar de forma drástica a qualidade de vida.
O livro apresenta dados e exemplos concretos de como essa transformação pode acontecer em áreas essenciais como água e saneamento, alimentos e agricultura, saúde e assistência médica, energia, educação, democracia, população e urbanização, tecnologia da informação e comunicações, filantropia, além de processos de desmaterialização e desmonetização.
Preparando o mundo para a Confiança na Abundância
O mundo atual, em geral, ainda não está preparado para confiar na abundância. Continuamos polarizados em torno de ideologias oriundas do medo da escassez. Como fazer essa transição?
O Brasil pode desempenhar um papel central nesse processo. Mesmo sem um prêmio Nobel em nosso currículo, temos características únicas: somos um país de dimensões continentais, acolhedor em relação ao estrangeiro e mais aberto à diversidade de raças e credos religiosos do que a maioria das nações. Essas qualidades nos tornam um terreno fértil para o avanço da Supermente Global a partir daqui, com um pensamento mais globalizado e menos nacionalista. Além dos benefícios locais, o Brasil pode servir de inspiração e modelo para outros países.
A proposta que apresento, em conjunto com a Fundação Geniantis, é que isso pode ser feito por meio de Redes de Inteligência Coletiva (RICas) onde Inteligência Coletiva é entendida como a capacidade coletiva de alcançar metas e objetivos. Assim, Redes de Inteligência Coletiva são redes de pessoas dispostas a colaborar de forma intencional para atingir objetivos e metas comuns.
Para tornar essa ideia mais concreta, darei um exemplo inspirado no cotidiano: uma turma em uma escola pública — ainda que as RICas possam se manifestar em diferentes dimensões e apresentem propriedades auto similares.
Rede de Inteligência Coletiva do 6ºC da Professora Mentora de Turma Suely
Um exemplo (hipotético, por enquanto) é a Rede de Inteligência Coletiva TurmaBR 6ºC, em uma escola do Programa Ensino Integral (PEI‑BR) da Diretoria de Ensino Sul 2, em São Paulo, como parte da proposta EDFICA - Educação Focada na Inteligência Coletiva e Atenção 1a1.
O 6º ano costuma ser um período desafiador. Estudantes que eram os mais velhos no 5º ano passam a ser os mais novos, e precisam lidar com vários professores diferentes, cada um com seu próprio jeito de dar aula. Além disso, muitos vêm de contextos de vida e situações socioeconômicas difíceis, o que gera estresse e emoções negativas que ocupam grande parte do espaço mental, deixando pouco lugar para a aprendizagem.
Na EscolaBR, porém, a experiência é diferente. A professora Suely, além de lecionar Ciências, atua como Professora Mentora de Turma (Pro-mentora) do 6ºC. Ela ministra. semanalmente, duas aulas de Ciências e duas de Inteligência Coletiva: uma dedicada a conceitos de Inteligência Coletiva — como as 24 Forças de Caráter e as 5 Fomes da Mente — e outra focada em Mentoria Coletiva. Nessas aulas, os alunos desenvolvem empatia e aprendem a usar a força certa, na hora certa e na dose certa. Percebem que todos contribuem para o grupo. No 6ºC, nenhum estudante tem um status menor que o dos colegas.
A Pro-mentora Suely forma e capacita os GHESTA - Grupos Heterogêneos Estáveis, garantindo papéis definidos e colaboração entre grupos de quatro estudantes para resolver problemas sem solução única — desafios que exigem a participação de todos e até permitem o uso de IA como apoio. Ela também apoia professores de outras disciplinas da base comum, que passam a usar os mesmos GHESTA em suas aulas.
Como Pro-mentora, Suely representa sua TurmaBR perante os outros professores. Quando surge uma “emergência” no 6ºC, ela alterna rapidamente do papel de professora de Ciências para o de Pro-mentora. Conhece a história familiar e os responsáveis de cada estudante — pais, avós, responsáveis legais — pois mantém encontros periódicos com eles, inclusive para compartilhar os conceitos de Forças de Caráter e Fomes da Mente ensinados aos alunos.
Tudo isso, aliado às aulas e mentorias, coletivas e individuais 1a1, permite desmassificar a educação: cada estudante sente mais status, respeito e pertencimento.
Formação docente excepcional: benefício para a Profa. Suely e para a sociedade
A figura mais importante na educação é o professor. Basta pensar naqueles que, em algum momento, deixaram marcas profundas em você — marcas que, muitas vezes, permanecem por toda a vida.
Além dos benefícios para os estudantes e para a aprendizagem, a Profa. Suely também é profundamente beneficiada por essa experiência. Ao ver seus alunos aprendendo e se preparando para viver vidas mais significativas, ela reencontra ânimo e esperança diante de um sistema educacional que muitas vezes parece desalinhado das necessidades contemporâneas.
A formação inicial da Profa. Suely não foi das melhores. A maior parte dela se deu por meio de um curso a distância — era o que ela podia pagar. Mas, após assumir o papel de Pro-mentora, com o ânimo redobrado, passou a estudar ciências e comportamento humano por conta própria. Na prática, como Pro-mentora— ensinando Forças e Fomes, atuando como mentora coletiva e individual, exercendo empatia de forma constante e buscando sempre um alto padrão de apoio aos seus alunos — ela desenvolveu competências pessoais que a qualificam cada vez mais para liderar Redes de Inteligência Coletiva - Supermentes.
Essa atuação não apenas transforma sua turma, como também contribui para fortalecer o prestígio da classe docente perante a sociedade, que passa a enxergar o professor como alguém com um papel ainda mais relevante e indispensável.
O cenário descrito ainda não acontece em toda a sua plenitude. A Geniantis está em busca de respaldo acadêmico e institucional, junto à SEDUC‑SP e SEDUC-CE, para criar projetos‑piloto que permitam refinar e validar — ou, se necessário, rejeitar — a noção de que as RICas na educação básica podem impulsionar um futuro incrementalmente mais positivo dentro da proposta EDFICA - Educação Focada na Inteligência Coletiva e Atenção 1a1.
Um futuro positivo
E o que a TurmaBR da Pro-mentora Suely tem a ver com um futuro positivo?
Como seria a Supermente Global Inteligente e Sábia desse futuro positivo?
A Diretoria de Ensino Sul 2, com suas 92 escolas, prédios, salas de aula, cerca de 5.000 professores e aproximadamente 100.000 estudantes, constitui uma espécie de Supermente — ela existe e, até certo ponto, pode‑se dizer que possui algum nível de “consciência” (Malone, 2018).
E a Supermente do 6º ano C, liderada pela Professora Mentora de Turma Suely, também existe? Teria ela uma forma de autoconsciência? Sim. E essa existência e consciência se tornam mais nítidas à medida que usamos linguagem para descrevê‑la como uma Supermente - Inteligente e Sábia se possível.
Da mesma forma, as Supermentes GHESTA — pequenos grupos de quatro alunos dentro do 6ºC — também existem e desenvolvem “consciência”. Durante um bimestre, o mesmo grupo trabalha junto para resolver problemas complexos, valorizando a contribuição de cada integrante. Forma‑se, então, uma pequena Supermente de quatro estudantes, cujos padrões se “assemelham” aos da sua TurmaBR como um todo e, por analogia, à própria Supermente Global com seus bilhões de habitantes. Podemos dizer que tanto a TurmaBR quanto cada GHESTA são fractais um do outro e da Supermente Global.
Os padrões GHESTA, 6º C e Supermente Global se repetem como um brócolis
Um exemplo simples de fractal é o brócolis: suas menores partes têm forma semelhante ao conjunto inteiro, em qualquer escala. A “padronagem” é repetitiva. De forma análoga, a partir do conceito de fractais e da repetição de padrões, podemos analisar as propriedades de um GHESTA ou de uma TurmaBR Inteligente e Sábia — e extrapolar essas propriedades para imaginar uma Supermente Global, ou vice-versa.
E o que define uma TurmaBR ou um GHESTA Inteligente e Sábio? São grupos que valorizam a identidade e a contribuição de cada pessoa, ao mesmo tempo em que resolvem problemas de forma colaborativa e harmoniosa. Neles, a diversidade de pensamentos e ideias é aproveitada, todos têm voz, e se sentem respeitados. Se um estudante do grupo tem uma liderança carismática, seus colegas reconhecem e aceitam sua influência - mas não se deixam manipular por ela.
Seguindo esse raciocínio, uma Supermente Global Inteligente e Sábia seria um fractal de um GHESTA Inteligente e Sábio: um coletivo com grande capacidade de resolver problemas e alcançar metas comuns, onde todos têm voz e onde lideranças carismáticas — talentos naturais — contribuem com suas ideias sem manipular seus pares.
Deixo a você uma reflexão: o que seria, afinal, uma Supermente Global Inteligente e Sábia? Quais padrões encontrados no 6ºC da Mentora da Turma Profa. Suely e seus GHESTA se “repetem” em escala mundial?
Educação como Propulsora da Supermente Global
Uma Supermente Global Inteligente e Sábia pode nos ajudar a transformar o atual medo da escassez — e todas as suas consequências negativas — em confiança na abundância exponencial e no alcance do maior bem para o maior número de pessoas.
A capilaridade e a expansão da EDFICA - Educação Focada na Inteligência Coletiva e Atenção 1a1, por meio de Redes como GHESTA, TurmaBR, EquipeBR, entre outras, podem fortalecer essa Supermente Global com milhões de integrantes, acelerando uma tendência que já existe: a propensão para um futuro positivo.
Que essa visão não permaneça apenas como uma ideia bonita no papel ou na tela de computador. Cada conversa, cada gesto de colaboração, cada estudante que aprende a usar suas forças para o bem coletivo, é um passo na construção dessa Supermente Global Inteligente e Sábia. Não precisamos esperar pelo amanhã para começar: podemos cultivar hoje, em nossas salas de aula, equipes de trabalho e comunidades, os padrões que desejamos ver refletidos em escala planetária.
Afinal, o futuro positivo não é um destino distante — é uma construção contínua que começa agora, nas escolhas que fazemos a cada dia.